quarta-feira, 17 de setembro de 2008

MILITARES, ONTEM E HOJE


* Há momentos na vida em que nos apetece reflectir, pensar sériamente o que tem sido a nossa participação societária no mundo que nos rodeia... e damos connosco a perguntar ao nosso subconsciente qual a razão porque nos acontecem determinadas coisas, do que não sabemos dar resposta.
* Na Força Aérea, quando saía a famigerada Ordem de Serviço da Direcção do Serviço de Pessoal, o coração batia desordenadamente a muitos de nós, pela expectativa de haver uma nomeação para África... especialmente quando era a Guiné, o Norte de Angola ou de Moçambique a caír em sorte aos desafortunados.
* É assim que, com a devida vénia se retirou do Jornal "BADALADAS" o artigo "Militares, ontem e hoje", no pretérito dia 12 de Setembro, da autoria do ilustre Advogado António Martins Moreira, que foi Alferes Milº. de Infantaria na CART 1690 - que serviu na Guiné:

- "Assistimos há dias, pelas estações de TV, ao regresso de um grupo de sessenta militares de uma missão no Afeganistão, no âmbito da NATO. Vinham sob o comando de um tenente-coronel.
Chegaram satisfeitos e felizes ao aeroporto militar de Figo Maduro, com a sensação do dever cumprido, tendo a recebê-los, com a visível grande alegria, justificada, as respectivas famílias e, certamente, 'alguma alta patente' do Exército.
Relataram, até à exaustão, o seu enorme sacrifício, no qual, durante os seis meses que durou a missão, até chegaram a sofrer uma emboscada do IN (Talibãs), que lhes causou dois feridos ligeiros! Estes militares, quando destacados para estas missões no estrangeiro, com maior ou menor risco, são sempre voluntários e ganham bem.
Há cerca de um ano, com mandado das Nações Unidas, foi também destacado para a reconstrução do Líbano, na sequência de mais uma guerra com Israel, um contigente português de engenharia, composto por cento e vinte homens, comandado por um tenente-coronel de engenharia. Na despedida e regresso, nestes e noutros similares, sempre o mesmo folclore em Figo Maduro, com generais e ministros a saudar e felicitar os nossos militares.
Reconheço, o que aliás é público e notório, que as nossas Forças Armadas, em missões no estrangeiro (e também cá dentro), sempre se comportaram com elevado sentido de serviço público, com nobreza de carácter e galhardia, com um carinho especial para com a população que encontram nos vários teatros onde actuam, assim dignificando e elevando bem alto o bom nome e o prestígio do nosso país.
Mas para as centenas de milhares de veteranos da chamada Guerra Colonial, ainda vivos, muitos deles a morrer à míngua pelas nossas aldeias mais recônditas, este aparato, esta encenação e este folclore constituem, em última análise, uma provocação, um insulto e uma humilhação gratuita. Ao contrário dos actuais expedicionários, os nossos veteranos de guerra, salvo uma ou outra excepção, nunca foram voluntários para a guerra.
Foram obrigados a combater contra os nossos irmãos africanos, que lutavam pela sua dignidade e independência, e partiam com um saco cheio de nada, com 'prés' de miséria, para teatros de operações totalmente adversos. Estes não se ofereceram, mas quando a pátria os chamou, tudo largaram para a servir e apresentaram-se, aos magotes, vindos em autocarros ou em combóios, para as portas de armas dos quartéis de incorporação, nas datas designadas.
Para trás deixavam as famílias, as enxadas, os campos, as fábricas, os escritórios ou os bancos das universidades (os que iam para oficiais) e só voltavam passados cerca de três anos, sendo um de treino e dois de comissão. Naquele tempo, raramente se via uma alta patente nos embarques e desembarques.
Um grupo de sessenta homens nunca era comandado por um tenente-coronel, que comandava um batalhão composto por cerca de oitocentos homens, sendo certo que para comandar sessenta homens bastava um alferes que, com frequência, comandava uma companhia, com cerca de cento e oitenta a duzentos homens efectivos. A pátria actualmente trata de forma condigna os seus militares, com uma atenção às vezes até excessiva e ridícula.
Aos veteranos da Guerra Colonial olha-os com desprezo, finge que não existem, como se constituíssem um fardo que tarda a desaparecer, ao contrário dos países civilizados, como os EUA, a França, a Inglaterra, a Bélgica, que os tratam com o respeito e a consideração adequados. Enfim, tempos diferentes e mentalidades diferentes."

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