sábado, 28 de março de 2009

AO SABOR DA PENA...

Nunca consegui entender muito bem o porquê de muitas coisas que foram acontecendo durante a minha permanência nas fileiras da Força Aérea, talvez porque nunca tinha pensado muito nesses mesmos acontecimentos, que não foram, de modo nenhum, inibitivos para que o gosto pelas coisas que respeitam àquela Arma viesse a crescer de um modo que me faz afirmar, sem receios, ter sido a FAP a minha outra escola para a formação do meu carácter - desculpe-se a falta de humildade - como homem e como Militar.
Sei que vivi bons e maus momentos, fiz bons e maus relacionamentos, conheci bons e maus camaradas de armas... mas as coisas positivas sobrepuzeram-se claramente às negativas, pelo que não há que reclamar da sorte... penso eu de que!
Fiz Amigos verdadeiros, e alguns estarão para sempre no meu pensamento, pela disponibilidade, pela entreajuda, pela solidariedade, pelo despojamento em prol do outro, sem fazer perguntas incómodas ou recriminações indesejáveis, antes acarinhando, incentivando, aconselhando... pois eram assim os membros da grande Família da Base Aérea nº. 3!
Mas também haveriam por ali algumas invejas, ciúmes bacocos, maldades provenientes de alguma deformação de carácter e inversão de valores... para não falar em algo que me custava muito a acreditar pudesse acontecer: - as inimizades provocadas pelas cores políticas defendidas por alguns Homens bastante conhecedores do dever de isenção que lhes era imposto pela sua condição de Militares, pois estes não podem, nos termos regulamentares, estar filiados em qualquer organização política, nem tampouco tomar parte em debates partidários sem estar superiormente autorizado...
... Encontrei, num dia destes, alguém que me interpelou na rua e me perguntou se não tinha estado em Tancos, como Militar. Lógico que confirmei, perguntando ao meu interlocutor se também havia lá estado. Ele sorriu e disse que tinham lá estado o pai, dois irmãos mais velhos... indo ele parar à Ota, onde fez a Recruta e o Curso, partindo dali para Beja, para a Base Aérea 11, estando agora no Montijo, esperando ir frequentar o Curso de Sargentos logo que o chamem para tal.
Como ele não tinha estado ao serviço da BA3, como sabia que eu lá tinha estado? Disse ter acompanhado o pai nos Juramentos de Bandeira dos irmãos e haver falado comigo e com o pai, que podia ter sido da minha Recruta, dada a idade... mas não me recordava dele daí mas sim de Angola, pois é dois anos mais novo que eu... logo foi incorporado mais tarde, porque não ingressou voluntáriamente na FAP, como eu fiz. Ao fim e ao cabo, o que ele me queria dizer é que tinha bastante pena de haver sido encerrada a BA3, pois gostaria de ter a sorte de nela prestar serviço, como aconteceu com o pai e os irmãos, que recordavam com bastante saudade os Juramentos de Bandeira na extinta Base, que consideravam ser das melhores Unidades da FAP em Portugal.
Agradeci os elogios, que sei não me serem dirigidos, uma vez que não sou a Base Aérea 3 nem sequer o seu curador. Apenas e tão só fico feliz por haver gente que não esquece a Unidade onde as contigências da sua condição humana os levaram num belo dia das suas vidas... deixando-os então marcados com o ferrete das saudades que Tancos lhes suscitaram.
Mas acabei por me alongar sem falar das coisas, boas ou más, que me foram acontecendo nos meus dias de Tancos. Ainda recordo daquele famoso petisco, servido nos almoços da Base, que era constituído pelos "JU's com batata camuflada", da "toucinhada gorda com feijão encarnado" e tantos outros acepipes que fariam inveja aos menús do Solar dos Presuntos ou do Gambrinus. O Chefe Evaristo que me desculpe, mas o Solar deveria ter tido o privilégio de ter podido encontrar um Mestre Cuca capaz de ofuscar Pantagruel nas suas fantasias gastronómicas, como acontecia na BA3 "in ilo tempore".

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