quarta-feira, 17 de junho de 2009

A FORÇA AÉREA ESTÁ A DESAPARECER!

Sem comentários, porque desnecessários, damos à estampa este trabalho do Ten.Cor. PILAV na Reforma João José Brandão Ferreira, sobre a Força Aérea que fomos ontem, somos hoje e seremos amanhã, no momento em que estamos na curva descendente da vida da Instituição, que está já ligada à máquina, aguardando que a desliguem. Extrema Unção já foi ministrada pelo oficiante Severiano.
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- "Falcões Brancos check in"
- "two, three, four"
- " branco one"
"A Força Aérea nasceu como Ramo independente em 1 de Julho de 1952, reunindo a arma de Aeronáutica Militar, existente no Exército, desde 1914, e o Serviço de Aviação Naval criado na Armada, em 1917.
A FA atingiu o seu mais alto nível em 1974, no fim das campanhas de contra guerrilha nos territórios portugueses africanos, iniciados em 1961. Tinha então cerca de 22000 homens e operava 24 tipos diferentes de aeronaves, num total de cerca de 450.
Para se ter uma ideia da verdadeira explosão da actividade aérea, basta dizer que durante o período de guerra foram construídas no ultramar português, cerca de 700 estruturas aeronáuticas...
Em 1975/6, com o fim das operações, o tipo de aeronaves foi reduzido para 12 e o pessoal estabilizou à volta dos 10000, civis e paraquedistas incluídos.
Após a notável acção do general Lemos Ferreira como Chefe de Estado-Maior, que "reafirmou" a FA no seio nacional e lançou as bases da sua modernização, deixando trabalho para mais de 20 anos, a Força Aérea, apesar de ser o Ramo com menos recursos - sem embargo das suas missões terem aumentado -, não parou de se reduzir.
Assim por alto, a FA cedeu (incompreensivelmente, deve dizer-se) a Base Aérea de Tancos ao Exército; entregou o Aeródromo de Manobra nº 2, para a autarquia de Aveiro; a OTA deixou de ter aviões; os Açores estão reduzidos a uma esquadra; o Corpo de Tropas Paraquedistas foi "transferido" para o Exército e as OGMA transformaram-se em Empresa Pública e depois vendida a brasileiros.
A capacidade de sustentação das frotas e o número de horas de voo não tem parado de diminuir.
Pior ainda do que tudo o que foi dito, foi a redução no pessoal com áreas críticas em várias especialidades e as dificuldades de recrutamento. Deve ainda juntar-se ao descrito a degradação no Moral, ponto sensível em qualquer organização. E tal é válido para quem continua no activo, como o que passa à reserva e reforma. E enquanto alguns parâmetros são contabilizáveis, o último não o é. Ultimamente todos os parâmetros se agravaram. A asfixia financeira continua (e é idêntica à dos outros Ramos); o pessoal debanda, por três razões principais:
- degradação acentuada das condições salariais e de apoio à família militar;
- desvalorização social da dignidade da Condição Militar e
- falta de auto estima e coesão interna.
É que antigamente a miséria era "dourada". Agora continua miséria e deixou de ter cor... A degradação da capacidade de sustentação acentuou-se, e a crise na gestão de pessoal está a criar rupturas. A saída de pilotos, por exemplo, é um corropio. já chegou aos generais. Partindo do princípio que a operacionalidade das esquadras de voo é a pedra de toque de qualquer Força Aérea, aquilo que se tem passado nos últimos tempos é de molde a aumentar as preocupações, são exemplos, as baixas prontidões para o voo de praticamente todas as frotas, a saída de pessoal navegante; a lentidão extrema com que se têm feito a modernização dos F-16 (MLU), a que o último acidente com perda total de aeronave, só veio exponenciar; a ultrapassagem em termos práticos da vida útil da frota ALIII (que já merecia uma "Torre e Espada") e a degradação acelerada da mais moderna frota que equipou a FA, os helicópteros Merlin, dos quais já há quatro parados a servirem de fonte de peças, pois a máquina entrou ao serviço sem se ter garantido a respectiva manutenção de 3º escalão. São milhões de contos que estão em jogo e a missão importantíssima de Busca e Salvamento, que ou nos enganamos muito ou o governo está a preparar-se para retirar essa missão das FAs e atribui-la à Protecção Civil e aos Bombeiros. . Os C-130 que representam a face mais visível da FA, arriscam-se a colapsar por não terem tripulantes . Até o Falcon 50 aterra por precaução em Itália, com o Presidente da República a bordo, o que sendo uma coisa que pode acontecer a qualquer um, ocorreu em altura nada conveniente...
Com a ida do novo aeroporto para Alcochete, a FA vai perder o seu campo de tiro ar-solo e nãotem alternativa para o mesmo.
A Base do Montijo vai ver certamente limitações à sua operação. As aeronaves que dão tiros (que são a "força" da FA) estão reduzidas a duas (o P3C e o F-16), se considerarmos que o que resta do Alpha Jet se destina a converter pilotos para o F-16; a nova frota de 12 C-295, que se destina a substituir os Aviocar arrisca-se, assim, a começar com o "pé esquerdo". A lista não acaba aqui, mas julgo que já disse o suficiente para ilustrar o problema.
Está na hora de reagir. E esta reacção só pode vir de cima para baixo. Mas para ter sucesso é necessário colher o apoio de todo o pessoal até ao mais baixo escalão. E não chega. É preciso mobilizar todos os que serviram na FAP.
Tripulantes, pessoal técnico e administrativo: esqueçam eventuais queixas que tenham ou inimizades que fizeram, é preciso novamente vestir a "camisola" para salvar a Instituição. Antigos oficiais, sargentos, especialistas, praças e civis, toca a reunir que valores mais altos se levantam. E se for preciso solicitar solidariedade aos outros Ramos, que se peça. É um sinal de humildade além do que eles também precisam de nós . Ainda estamos cá por "Mérito Próprio" (Ex-Mero Motu)."
- "Branco um, dentro"
- "Branco um, fora"
- "Branco dois, dentro ."
João José Brandão Ferreira TCor Pilav (Ref) (ex Falcão Mor)

5 comentários:

Anónimo disse...

sinhor inginheiro de domingo

res non verba

Anónimo disse...

Caro camarada... ou ex-camarada, permita-me uma pergunta, que
não deve ser vista como um insulto ou ataque pessoal...
Desde 1971 até a data, já houve algum Saj. SChefe ou Smor como CEMFA?
A quem podem ser postas culpas pelas boas escolha efectuadas nos ultimos anos?
(Planeamento, material, politica de pessoal, defesa da organização e representação dos direitos do pessoal no activo e na ref. e reserva...)
A que classe?
Está a desaparecer sim... mas não por culpa dos especialistas ou dos of. Técnicos...

Agora é fácil...quando toda a vida se baixaram aos políticos...

Zé... ( não aviador!)

rotivsaile disse...

Caro Senhor Zé - não aviador -, que presumo ter sido não voador mas ligado às máquinas que voam, nem que seja nos jogos de vídeo.
Permito uma, duas, dez ou duzentas perguntas, desde que não sejam de índole pessoal...pois o que pergunta não ofende, e a mim também só ofende quem eu permito que o faça, como deverá compreender.
Sabe... o Tenente Coronel Brandão Ferreira emitiu uma opinião, que fundamenta, sobre algo que estamos a verificar no quotidiano corresponder a uma verdade insufismável que ninguém ousará contestar: A FORÇA AÉREA ESTÁ A DESAPARECER, de forma lenta, como convém a quem nos bastidores lhe vai ministrando as doses de veneno capazes de a deitar por terra, lentamente, muito lentamente...
Cavalheiro: Fui 18 anos Primeiro Sargento, estando na 1ª. Classe de Comportamento, possuíndo a Medalha de Mérito Militar... pelo que não me deve ser dirigida essa de desde 1971 atè à presente data ter algum Sargento exercido o cargo de CEMFA. Claro que não e nem antes tal veio a acontecer em Portugal. Em Angola e Moçambique... isso não teria importância, pois os Cabos Especialistas da FAP naturais desses Países lusófonos, tornaram-se Majores, T.Coronel... e até Brigadeiros! Era preciso arranjar quadros e vamos a isso.
Mas cá não era assim. Lá a ideia foi criar uma Força Aérea, cá aquilo que se preconiza é destruír...destruír...destruír!
Quem escolhe os Ministros é quem vota... e isso não é aplicável no
caso presente!
Essa dos Especialistas ou Oficiais Técnicos deixa perceber muito daquilo que diz.
O texto é para reflexão, não para ataques a ninguém!
Com os melhores cumprimentos
do Victor Elias - SAJU SAS

Luís Gouveia disse...

"é preciso novamente vestir a "camisola" para salvar a Instituição. Antigos oficiais, sargentos, especialistas, praças e civis, toca a reunir que valores mais altos se levantam" - Não sei bem qual o alcance que o Sr. Tcor. Brandão Ferreira pretendia dar a estas sua palavras, mas eu entendo-as também da seguinte forma:

Porque é que a FAP não equaciona a adaptação do modelo dos EUA em relação à Air National Guard? Não seria interessante ponderar a reintegração de parte do vasto contingente pessoal especializado na situação de disponibilidade e reserva(agora espalhado por empresas e serviços civis)?

Certamente que envolveria grandes reestruturações e custos, mas não serão os encargos nos moldes actuais - "do forma e deita fora" - ainda mais preocupantes? E não será que uma reestruturação de fundo (inclusivé de valores morais) aquilo que a FAP mais precisa?!?...

Augusto disse...

Plenamente de acordo com o Sr tcor.
Não estou no activo,porque saí da nossa FAP em 1983,mas percebo bem as mágoas descritas por este oficial.
A FAP precisava que os Antigos Oficiais,Sargentos e Praças fizessem uma Recolha de Assinaturas num Manifesto dirigido :
Ministro da Defesa
CEMFA
Pres. da Republica

Continuamos a ser o parente pobre das Forças Armadas de Portugal.

A. Martins
PCabRD/MMT