quarta-feira, 25 de novembro de 2009

25 de Novembro - 34 anos depois...

Eu estava em Tancos, na Base Aérea nº. 3, naquele Novembro de 1975 em que aconteceu a assembleia do MFA em Tancos, em resultado da qual a esquerda militar foi afastada dos órgãos político-militares e de comandos militares.
O mês de Novembro veio a mostrar à saciedade estar Portugal fora de controle. Era no tempo do VI Governo provisório e surgem no ar várias histórias sobre a criação do AMI, afirmando-se que este seria um grupo de intervenção militar com ligações com a direita, respondendo a esquerda com o assalto à Rádio Renascença, que se viu reocupada por forças da esquerda radical, levando a que, no dia 7 de Novembro, alguns Oficiais Pára-quedistas se dirijam às instalações da Rádio Renascença e façam explodir o emissor. A este acto seguiu-se, logo no dia 8, a "resposta dos Sargentos e Praças Pára-quedistas", que se recusaram a receber na Base Escola de Tropas Páraquedistas o então Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, General Graduado Pilav Morais da Silva e tomam conta da unidade.
Em 21 de Novembro realizou-se um mais que polémico arremedo de juramento de bandeira, apelidado de revolucionário, no Regimento de Artilharia de Lisboa, o famoso Ralis. Era o PREC militar em toda a sua plenitude! SUV, COPCON, ocupações de herdades, ocupação de empresas, saneamentos, prisões arbitrárias...
Depois, no dia 23, dá-se uma ridícula disputa pelo controle de um Batalhão de Pára-quedistas que regressa de Angola. Este Batalhão é composto por homens que não viveram as convulsões revolucionárias e não estão por dentro da "guerra" em que, cá em Portugal, os Pára-quedistas, se têm visto metidos.
Quando o barco da polícia marítima foi fazer o primeiro contacto com o navio, com a decisão de que não deveria atracar no cais, leva um enviado do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea que é o portador de uma mensagem dirigida ao Comandante da Unidade embarcada, Tenente-Coronel Heitor Almendra, na qual este é prevenido de que os Páras não seguem para para a Base Escola de Tancos e que não deverá deixar entrar no navio qualquer um dos Sargentos que também iam no barco, que vinham mandatados pelos Pára-quedistas que se haviam revoltado em Tancos e que pretendiam ter aquelas Tropas a seu lado.
Em Lisboa, nesse mesmo dia, realiza-se um comício em apoio do VI Governo . Mal desponta o dia 25 de Novembro, as tropas Pára-quedista estão em polvorosa, pois foi-lhes cortada a água, a luz e a alimentação, ao mesmo tempo que correm os boatos de que os "contra-revolucionários" iriam dar um golpe.
Durante a noite foi formado, no SDCI, um estado-maior da esquerda militar, que estaria ainda pouco consolidado e cujas ramificações no Copcon parecem insuficientes. Está em contacto com os pára-quedistas quando foi posto a correr o boato que a Força Aérea estava pronta para começar a bombardear. Que melhor ou pior pretexto precisariam os "páras" para saír? Sairam com um aparato que apenas se poderiam pensar ser possível se fosse tomado para um acto de guerra.
As Forças Armadas leais estavam preparadas e viram que havia condições para ser dado o contragolpe. Têm toda a legitimidade institucional e o apoio do Presidente da República, que foi decisivo para o retorno à calma. Do outro lado apenas uma coisa digna de registo: - Deu-se o desaparecimento do Copcon...
34 anos após estes acontecimentos, vemos os Pára-quedistas donos e senhores da nossa velha Base, mais parecendo uma retaliação por ter havido Bases, entre elas a de Tancos, que ousaram fazer frente à rebelião de uma força de élite a quem a Força Aérea tudo deu, desde prestígio a condições de sobrevivência. Hoje devem rir-se, porque lhes foi entregue a Base que sempre ambicionaram, do mesmo modo que alguém um dia resolveu entregar o Ultramar: sem dignidade!

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