domingo, 31 de janeiro de 2010

O 31 DE JANEIRO - DIA DO SARGENTO

Nas comemorações, hoje iniciadas, dos 100 anos da implantação da República, o 31 de Janeiro simboliza o primeiro assalto no combate pela queda da Monarquia, perpetrado pelos militares... que mais uma vez foram os autores da mudança de um regime, se bem que então foram os Sargentos a dar a cara por um ideal - o Sargento Abílio foi o primeiro que deu vivas à República - enquanto no 25 de Abril foi a vez dos Capitães, mas aqui não mudaram o regime mas sim de sistema governativo.
Havia um descontentamento generalizado com as políticas do soberano Português, o rei D. Carlos e a ameaça de guerra feita pelos ingleses – caso Portugal não desocupasse os territórios entre Angola e Moçambique (o famoso Ultimato Inglês) – fez transbordar uma indignação sem precedentes.
No Porto vamos encontrar o centro da revolta. Na madrugada fria e chuvosa de 30 para 31 de Janeiro houve uma noite sem sono. No início da madrugada, um incontável magote de pessoas foi concentrar-se à porta do quartel do Campo de Santo Ovídio – hoje a Praça da República – e aí se uniu aos militares numa contestação ao estado a que o país havia chegado.
As finanças estavam na bancarrota, o país vivia a ditadura de João Franco e a política colonial da Coroa estava a mostrar-se um autêntico desastre. Junte-se a tudo isto, o descontentamento que grassava nos vários sectores do exército.
O país almejava mudanças e saiu à rua para as exigir. Deram-se vivas à República, o sargento Abílio ficou como uma das figuras lendárias da revolução, por ter sido o primeiro militar a lançar um ‘Viva a República’!”, relata Germano Silva, um jornalista e historiador do Porto.
Os populares entusiasmam-se e a Rua do Almada foi varrida pelas centenas, talvez milhares de pessoas agitadas que engrossaram o movimento. À frente seguia a tropa com o povo atrás… A lançar as ‘morras’ ao rei e a vitoriar a República e as pessoas… Um dos que foi muito aclamado foi Álvaro Castelões. Ele teve uma actuação decisiva nas nossas colónias em África e, por isso mesmo, era um símbolo da integridade territorial e da luta pela manutenção das colónias do Ultramar em mãos portuguesas”.
Chegada ao fundo da Rua do Almada, a revolução desceu até à Praça da Liberdade e da varanda da Câmara do Porto proclama-se a República pela primeira vez. Juntou-se uma multidão imensa, o actor Verdial, leu o nome dos elementos que constituiriam o primeiro governo provisório”.
As horas iam passando e a revolta do Porto ganhava confiança e mais apoio popular, que se via cada vez mais evidente e numeroso.
Após a cerimónia da aclamação da República no edifício da Câmara, bastante rápida, era a hora de assumir o controlo dos locais mais estratégicos.
o capitão Leitão reuniu uma companhia de tropas e vários populares e começou a subir a Rua 31 de Janeiro (na altura chamava-se Rua de Santo António) onde o objectivo seria controlar o Quartel General e os Telégrafos”.
Começou aí a contagem decrescente para o trágico desfecho . Mais ou menos a meio da rua, a artilharia da Guarda Municipal – que estavam colocadas na ampla escadaria da Igreja de Santo Ildefonso começaram a disparar impiedosamente sobre militares e civis”. O cortejo festivo deu lugar a um banho de sangue. Estima-se que tenham perdido a vida 12 revoltosos. A fuga era inevitável. Os militares ainda tentaram ripostar mas o poder de fogo da Guarda Municipal era enorme”.
A manhã ia alta, eram nove horas da manhã, mais coisa menos coisa, quando tudo terminou. Como resultado imediato do 31 de Janeiro de 1891 foi ter a revolução durado escassas horas, porque foi abortada pela força das armas das tropas fiéis ao Governo.
No Porto viveu-se a República durante pouco tempo, mas com a derrota desse dia não morreu a vontade de mudar, sendo o 31 de Janeiro apenas o ponto de partida para um movimento imparável que veio a culminar com a implantação da República.
Houve elogios e homenagens aos triumfadores e não foram poupados os vencidos com toda a casta de imprecações. No momento da derrota ninguém pensou que a explosão revolucionária poderia voltar a acontecer, depois de algum tempo passado, e que a repetição podia vir a ser acompanhada de elementos que viessem a assegurar o êxito . Na ocasião todos trataram de mostrar á dinastia dos Bragança um servilismo não muito comum, pois aos pés do rei cairam, dias a fio, doses excessivas de lisonja que, porque eram "de encomenda", a ninguém conseguiam iludir.
Ficou conhecido o 31 de Janeiro como a "Revolta dos Sargentos", mas entre eles também havia quem soubesse traír, como foi o caso do sargento Castro, o autor da seguinte narrativa:
- «Tendo assistido á reunião da rua do Laranjalcontou ele em conselho de guerra, depondo como testemunha acusatória dos implicados na revolta—vi, com espanto, que se tratava d'uma representação dos sargentos ao governo, elaborada em termos taes, que era mais uma ameaça do que um pedido. Á reunião presidiu o alferes Simões Trindade. Pretendi tomar a palavra, para combater a forma como fora escripto esse documento, mas a maioria dos assistentes abafou as minhas palavras e eu retirei-me do local. No dia seguinte ao da reunião, procurei o capitão Sarsfield e narrei-lhe o succedido, para evitar que mais tarde me calumniassem...»
Parece que, em todos os tempos, há quem não desdenhe delatar por questões de servilismo, inconsciência, falta de camaradagem, espírito de traição arreigado no espírito ou o que se queira arengar sobre o comportamento deste Castro... que até era Sargento de Infantaria! Entre as boas maçãs pode sempre aparecer uma podre, que podemos deitar ao lixo, porque os porcos não são obrigados a comer porcaria.

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