sábado, 27 de março de 2010

Histórias da Base de Tancos

Na busca de histórias ligadas àquela que foi a Base Aérea nº. 3, dei de caras com este belo pedaço de prosa, da autoria do PA Loureiro/68 e publicada na Net pela Associação Nacional de Polícia Aérea.
Pelo interesse do trabalho, publica-se para que os vindouros possam reflectir sobre o "erro de casting" que foi a passagem da Unidade para a esfera do Exército... que afinal foi o berço da aeronáutica em Tancos.
"A nossa querida BA3
A PA “nasceu” em 1963 e em 1968 ainda ela era, portanto, uma criança.
A BA3, tal como a conheci naquele tempo, era o que se chama hoje um Centro de Formação, ali era ministrada a instrução de pilotagem de helicópteros, apoio à formação de páraquedistas com a velhinha esquadrilha de JU's - se é que se pode chamar assim -, gloriosas máquinas voadoras feitas em chapa ondulada que na “força” do verão, por vezes “borregavam”, e os pilotos tinham que efectuar novamente as manobras de aterragem devido à grande envergadura das asas da aeronave, conjugada com as correntes ascendentes das massas de ar aquecidas pela alta temperatura da pista (era o que diziam os entendidos). Formavam-se ali também , as especialidades do Serviço Geral.
Naquela altura era assim, cada macaco no seu galho! Haviam os Especialistas e os outros...nada de misturas! Por acaso eu andava "misturado" a partir do momento em que fui promovido a Cabo Miliciano, mas eu sabia muito bem qual era o meu lugar e que portanto, pertencia aos outros.
Os Especialistas, pessoal voluntário, técnicos das áreas ligadas à missão de vôo, com fardamento mais chique, verba superior para a alimentação (logo, comiam melhor), vencimento melhor, porque tinham 500$00 de prémio de especialidade em cima dos 90$00 de 1º.Cabo que era igual aos do Serviço Geral (estão a ver a diferença heinnn), não tinham bar mas sim um Club de Especialistas e pagavam quota e tudo.
E o Serviço Geral, pessoal oriundo do serviço militar obrigatório do exército, a maior parte deles apenas com a recruta tirada, vestidos com uma farda horrível daquilo que nós chamávamos de Pelo-de-Rato, com um blusão de méscla que nos fazia derreter com o calor do verão.
Por curiosidade, quando fui transferido para a Força Aérea o tempo de tropa era de 18 meses, quando estava a atingir os 18 meses, foi aumentado para 24 e quando estava a atingir os 24 meses... aumentaram para 36... e então eu tomei uma decisão: - vou-lhes fazer a vontade... vou meter o “Xico” e vou continuar na tropa! Depois... virei o “bico ao prego” e arrependi-me porque gostava muito da vida militar. No entanto tive engenho e arte para me “desenrascar” por outro lado e não fiquei a perder nada. O PA é assim mesmo!
Continuando: - A BA3, como Centro de Formação que era, em regra geral formava em cada turno (havia 4) 1 Pelotão de Amanuenses, 1 Pelotão de Condutores-Auto, 1 Pelotão de Bombeiros, 1 Pelotão de Clarins e duas Companhias de Polícia Aérea (vejam a diferença)... que eram os que tinham melhores condições de alojamentos, aliás, era a única camarata de rés-do-chão e primeiro andar.
Como é evidente, haviam muitos oficiais naquela base a quem nós batíamos educadamente aquela “palada” da ordem, mas a verdade é que, a maioria de nós nem sabia os nomes dos Comandantes, mas toda a malta sabia os nomes de 3 ilustres Oficiais e os outros eram “paisagem”: O Sr Capitão/PA- António Perestrello, agora Sr Coronel, que foi o Director do meu Curso de Sargentos Milicianos. Um homem impecável e sempre bem disposto,um apaixonado pelos explosivos, minas e armadilhas; O Sr Tenente Tasso, que era aquela figura majestática que nos obrigava a traser a fivela e todos os metais bem areados e nós, como caprichávamos, até aos ilhós das botas raspávamos a tinta e esfregávamos aquilo com solarina, à maneira, para parecer bem; O Sr Tenente Veiga Henriques, Comandante da Instrução da Polícia Aérea, era aquele homem que “era um terror”! A brincar a brincar dava cabo da gente! Nas suas visitas relâmpago às camaratas era um perigo, pois cama que não estivesse à sua maneira, a sentença estava logo dada: - carecada pela certa... e os outro cantavam "...e tudo o vento levou, ououu, ououu...". Ao fim de 15 dias já o pessoal não tinha motivo para gozar porque se não tinham sido contemplados, a coisa estava por pouco.
Foram anos maravilhosos. Em 1969 ou 70, foi uma “revolução” no fardamento, todo o mundo passou a andar fardado de azul, farda de verão, farda de inverno, sapatinhos, enfim... tinham acabado o privilégio de alguns. As diferenças mantiveram-se, mas no fardamento éramos todos iguais e passámos a ser “filhos da mesma mãe”. E isso envaideceu-nos e muito.
A Polícia Aérea, no uso das suas competências na Porta de Armas, tratava de fazer a triagem: - se não estava devidamente fardado, não deixava sair! Era bonito aparecermos em casa fardados à Força Aérea. E com isso já lá vão mais de 40 anos.
Um abração, rapaziada! Loureiro/68"
Por especial deferência da ANPA

1 comentário:

José Neto disse...

Também fiz este percurso na "velha" BA3, a partir de 15 de Janeiro de 1964. Ali fiz a recruta, curso PA (salvo erro, o 2º da história da PA) e escola de cabos. O oficial mais temido do meu tempo, que nos fazia a vida negra, era o tenente pára-quedista Mota Carmo. Guardo boas recordações desse tempo fabuloso.
José Neto - 208/64