quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

CARTA ABERTA AO MINISTRO DA DEFESA

As críticas do Ministro da Defesa Aguiar-Branco às estruturas associativas das Forças Armadas foram feitas há uma semana,  diante de oficiais, antigos chefes militares, elementos dos serviços de informações e parlamentares convidados para um almoço da revista Segurança e Defesa. Numa crítica implícita à Associação Nacional de Sargentos (ANS), que marcou mais uma jornada de protesto para o dia 16 de fevereiro, o ministro acusou “alguns movimentos associativos” de fazerem atividade política: “Deixem o que é militar aos militares, às associações o que é das associações e à política o que da política”.
“Disse várias vezes que o protesto é legítimo. Disse até que algumas das medidas podem não ser justas e que eu próprio preferia governar com outras condições financeiras. Mas banalizar o protesto militar desprestigia a instituição que jura cumprir as leis da República, utilizar o protesto militar como forma de intervenção pública, política e partidária é grave”, afirmava então Aguiar-Branco, fechando a porta a alegadas “opiniões partidárias” da ANS “sobre a extinção de um feriado [5 de Outubro] ou as condições salariais na Função Pública”.
Cada vez que o Governo (?) abre a boca para falar... ou entra mosca ou sai asneira... parecendo que os senhores que "comandam" esta porcaria que tem vindo a ser feita ano após ano, Governo após Governo, têm prazer em colocar o Povo Português mais uma vez à prova, como se a este não tivesse bastado ter 'aguentado' um Estado Novo durante quase 50 anos.
Os Militares quizeram mudar as coisas... mas parece que o saudosismo campeia entre aqueles que agora têm o dever de nos governar democráticamente.
Já agora, porque as vozes dos que sofreram na carne as tenebrosas manobras dilatórias do anterior regime e dos vários 'governos' que deveriam ter implementado a 'nova ordem' democrática, tardam em ser aceites como dignas de ser escutadas... vamos a vêr que diz o Senhor da Guerra, afecto ao PSD, às palavras escritas pelo Senhor Tenente-General Silvestre dos Santos, que julgo ser o porta voz ideal para estas coisas do autismo governativo.:  
...
" Ex.º Sr. General Chefe do Gabinete de S. Ex.ª o Ministro da Defesa Nacional, Caro camarada:
...
Apresento a V. Ex.ª os meus cumprimentos.
Tomo a liberdade de me dirigir a V. Ex.ª para lhe solicitar que transmita a S. Ex.ª o Sr. Ministro a minha indignação relativamente à forma pouco respeitosa e mesmo insultuosa como se referiu às Forças Armadas, aos militares e às suas Associações representativas, no passado dia 1 de Fevereiro. De todos os governantes, o Ministro da tutela era o último que deveria proferir palavras dessa estirpe.
Sou Tenente-General Piloto-Aviador na situação de Reforma, cumpri 41 anos de serviço efectivo e possuo três medalhas de Serviços Distintos (uma delas com palma), duas medalhas de Mérito Militar (1.ª e 2.ªclasse) e a medalha de ouro de Comportamento Exemplar. Servi o meu País o melhor que pude e soube, com lealdade e com vocação, sentimentos que S. Ex.ª não hesita em por levianamente em causa. Presentemente, faço parte, com muito orgulho, do Conselho Deontológico da Associação de Oficiais das Forças Armadas.
Diz o Sr. Ministro que “a solução está em todos nós. Em cada um de nós”. Não é verdade! A solução está única e exclusivamente na substituição da classe política incompetente que nos tem governado (?) nos últimos 25 anos, e que nos tem levado, de vitória em vitória, até à derrota final! Os comuns cidadãos deste País, nomeadamente os militares,não têm qualquer responsabilidade neste descalabro. Como disse o Sr. Coronel Vasco Lourenço no seu livro, “os militares de Abril fizeram uma coisa muito bonita, mas os políticos encarregaram-se de a estragar…” 
Diz também S. Ex.ª que as Forças Armadas estão a ser repensadas e reorganizadas. Ora, se existe algo que num País não pode ser repensado nem modificado quando dá jeito ou à mercê de conjunturas desfavoráveis, são as Forças Armadas, porque serão elas, as mesmas que a classe política vem sistematicamente vilipendiando e ultrajando, a única e última Instituição que defenderá o Estado da desintegração.
Fala o Sr. Ministro de algum descontentamento protagonizado por parte de alguns movimentos associativos. Se S. Ex.ª está convencido que o descontentamento de que fala se limita a “alguns movimentos associativos”, está a cometer um erro de análise muito sério e perigoso, e demonstra o desconhecimento completo do sentir dos homens e mulheres de que é o responsável político. Este descontentamento, que é geral,não tenha dúvida, tem vindo a ser gerado pela incompetência, sobranceria, despudor e, até, ilegalidade com que sucessivos governos têm vindo a tratar as Forças Armadas. É a reacção mais que natural de décadas de desconsiderações e de desprezo por quem (é importante relembrar isto) vos deu de mão beijada a possibilidade de governar este País democraticamente!
As Forças Armadas não querem fazer política! Não queiram os políticos, principalmente os mais responsáveis,“ensinar” aos militares o que é vocação, lealdade, verticalidade e sentido do dever. Mesmo que queiram, não podem fazê-lo, porque não possuem, nem a estatura nem o exemplo necessários para tal.
Quem tem vindo a tentar sistematicamente destruir a vocação e os pilares das Forças Armadas, como o Regulamento de Disciplina Militar, destroçado e adulterado pelo governo anterior? Quem elaborou as leis do Associativismo Militar, para depois não hesitar em ir contra o que lá se estabelece? Quem tem vindo a fazer o “impossível” para transformar os militares em meros funcionários do Estado? Apesar disso, tem alguma missão, qualquer que ela seja, ficado por cumprir? Fala S. Ex.ª de falta de vocação baseado em que factos? Não aceita S. Ex.ª o “delito de opinião”?
Não são seguramente os militares que estão no sítio errado!
...
Por tudo o que atrás deixei escrito, sinto-me profundamente ofendido pelas palavras do Sr. Ministro.
Com respeitosos cumprimentos de camaradagem
EDUARDO EUGÉNIO SILVESTRE DOS SANTOS
Tenente-General Piloto-Aviador (Ref.) 000229-B
P.S. – Informo V. Ex.ª que tenho a intenção de tornar público este texto."

Sem comentários: