quarta-feira, 25 de novembro de 2009

25 de Novembro - 34 anos depois...

Eu estava em Tancos, na Base Aérea nº. 3, naquele Novembro de 1975 em que aconteceu a assembleia do MFA em Tancos, em resultado da qual a esquerda militar foi afastada dos órgãos político-militares e de comandos militares.
O mês de Novembro veio a mostrar à saciedade estar Portugal fora de controle. Era no tempo do VI Governo provisório e surgem no ar várias histórias sobre a criação do AMI, afirmando-se que este seria um grupo de intervenção militar com ligações com a direita, respondendo a esquerda com o assalto à Rádio Renascença, que se viu reocupada por forças da esquerda radical, levando a que, no dia 7 de Novembro, alguns Oficiais Pára-quedistas se dirijam às instalações da Rádio Renascença e façam explodir o emissor. A este acto seguiu-se, logo no dia 8, a "resposta dos Sargentos e Praças Pára-quedistas", que se recusaram a receber na Base Escola de Tropas Páraquedistas o então Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, General Graduado Pilav Morais da Silva e tomam conta da unidade.
Em 21 de Novembro realizou-se um mais que polémico arremedo de juramento de bandeira, apelidado de revolucionário, no Regimento de Artilharia de Lisboa, o famoso Ralis. Era o PREC militar em toda a sua plenitude! SUV, COPCON, ocupações de herdades, ocupação de empresas, saneamentos, prisões arbitrárias...
Depois, no dia 23, dá-se uma ridícula disputa pelo controle de um Batalhão de Pára-quedistas que regressa de Angola. Este Batalhão é composto por homens que não viveram as convulsões revolucionárias e não estão por dentro da "guerra" em que, cá em Portugal, os Pára-quedistas, se têm visto metidos.
Quando o barco da polícia marítima foi fazer o primeiro contacto com o navio, com a decisão de que não deveria atracar no cais, leva um enviado do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea que é o portador de uma mensagem dirigida ao Comandante da Unidade embarcada, Tenente-Coronel Heitor Almendra, na qual este é prevenido de que os Páras não seguem para para a Base Escola de Tancos e que não deverá deixar entrar no navio qualquer um dos Sargentos que também iam no barco, que vinham mandatados pelos Pára-quedistas que se haviam revoltado em Tancos e que pretendiam ter aquelas Tropas a seu lado.
Em Lisboa, nesse mesmo dia, realiza-se um comício em apoio do VI Governo . Mal desponta o dia 25 de Novembro, as tropas Pára-quedista estão em polvorosa, pois foi-lhes cortada a água, a luz e a alimentação, ao mesmo tempo que correm os boatos de que os "contra-revolucionários" iriam dar um golpe.
Durante a noite foi formado, no SDCI, um estado-maior da esquerda militar, que estaria ainda pouco consolidado e cujas ramificações no Copcon parecem insuficientes. Está em contacto com os pára-quedistas quando foi posto a correr o boato que a Força Aérea estava pronta para começar a bombardear. Que melhor ou pior pretexto precisariam os "páras" para saír? Sairam com um aparato que apenas se poderiam pensar ser possível se fosse tomado para um acto de guerra.
As Forças Armadas leais estavam preparadas e viram que havia condições para ser dado o contragolpe. Têm toda a legitimidade institucional e o apoio do Presidente da República, que foi decisivo para o retorno à calma. Do outro lado apenas uma coisa digna de registo: - Deu-se o desaparecimento do Copcon...
34 anos após estes acontecimentos, vemos os Pára-quedistas donos e senhores da nossa velha Base, mais parecendo uma retaliação por ter havido Bases, entre elas a de Tancos, que ousaram fazer frente à rebelião de uma força de élite a quem a Força Aérea tudo deu, desde prestígio a condições de sobrevivência. Hoje devem rir-se, porque lhes foi entregue a Base que sempre ambicionaram, do mesmo modo que alguém um dia resolveu entregar o Ultramar: sem dignidade!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

OS PIONEIROS DE UMA AVIAÇÃO QUE NÃO CHEGOU A EXISTIR III

Pipper Cub L 21

3. A "AVENTURA" AMERICANA
Apresentados no Departamento de Comando de Fort Hamílton, em Brooklyn (Nova Iorque), os quatro oficiais seguiram para San Marcos (Texas), onde chegaram depois de uma longa viagem ferroviária de mais de 24 horas, para percorrer cerca de '/4 da distância que separa as duas fronteiras terrestres dos EUA.
Na inspecção médica pormenorizada efectuada na Base Aérea, apenas passaram sem reserva os dois alferes, dado que os dois tenentes tinham deficiências de visão, mais acentuada para o tenente Lopes Cerqueira. Este oficial regressaria directamente a Portugal, enquanto o tenente Azevedo Coutinho, depois de não ter tido êxito no treino de pilotagem, viria a frequentar o Curso de Transmissões da Escola de Infantaria do Exército dos EUA em Fort Benning.
0 Curso de "Liaison Pilot Training" tinha uma duração de 20 semanas e integrava dois sectores: um de ensino académico, em que eram ministradas lições de princípios de voo, instrumentos de voo, navegação, comunicações, meteorologia e manutenção, e outro de treino de pilotagem e navegação, em aviões "Piper Cub" L-21 e L-4 e L-5 (para o treino de voo de instrumentos), com um complemento de treino em simulador (linktraining"). Havia ainda uma sessão semanal de instrução de educação física "rudimentar" ministrada em grupo.
O ensino académico e o treino de pilotagem decorriam, em semanas alternadas, na parte da manhã ou na parte da tarde, com algumas noites reservadas ao treino de pilotagem.
Todos os instrutores eram militares da Força Aérea, exclusivamente oficiais para o treino de pilotagem, oficiais e alguns sargentos para o ensino académico e, inclusive, praças para a educação física.
Dado que se tratava de um curso que tinha por finalidade preparar pilotos para ingressarem, de seguida, na Escola da Aviação do Exército (Curso de "Army Aviation Tactics"), donde a maior parte dos pilotos ali graduados (pilotos do Exército) seguia para a Coreia, o treino de pilotagem era extremamente exigente, visando que os oficiais alunos conseguissem pilotar "por instinto" mantendo, em permanência, "a sua atenção fora dos aviões", por forma a escapar às armas anti aéreas e aos aviões de caça inimigos.
Assim, as áreas reservadas aos voos de treino de pilotagem eram intencionalmente exíguas para os cerca de uma centena de aviões que nelas manobravam em simultâneo. As 130 horas de voo programadas eram "religiosamente" cumpridas.
Sempre que as condições meteorológicas não permitiam voar com segurança, voava se aos sábados e domingos. Quatro classes, de cerca de 100 oficiais cada uma (na maioria segundos tenentes/alferes), seguiam o curso ao mesmo tempo, desfasadas de cerca de quatro semanas. As eliminações, em regra por deficiente coordenação revelada no treino de pilotagem ou por prática de manobras perigosas, ultrapassavam os 40% do efectivo inicial. E, contudo, alguns dos oficiais alunos tinham sido pilotos de aviões de hélice da Força Aérea dos EUA. Os eliminados (os "wash out") eram previamente presentes a uma junta formal ("board") que lhes proporcionava a oportunidade para exporem as suas razões de queixa ou simples desabafos.
Por vezes, a Junta decidia conceder mais algumas horas de treino de pilotagem, integrando para o efeito os oficiais alunos na classe imediatamente precedente (eram assim "wash back"). Foi o que aconteceu com o alferes Belchior Vieira que, tendo deparado inicialmente com algumas dificuldades nas aterragens (um "arredondar" do avião para a atitude de perda demasiado alto), veio a receber as "asas" de piloto do Exército dos EUA um mês depois do alferes Pacheco Rodrigues.
Na classe ("'53 E") em que foram incluídos os oficiais portugueses havia apenas mais três oficiais alunos estrangeiros: dois tenentes do Exército Norueguês e um tenente do Exército Francês. Todos eles se tornaram pilotos do Exército dos EUA.
0 Curso de "Army Aviation Tactics" tinha uma duração de 12 semanas e decorria na Escola de Aviação do Exército dos EUA (que se considerava a "melhor Escola de Aviação do Exército do mundo" ... ), então situada no perímetro da Escola de Artilharia em Fort Sill Oklahoma.
Tal como o curso de "Liaison Pilot Training", este curso compreendia dois sectores: um de ensino académico, com lições de organização, observação aérea, reconhecimento aéreo, fotografia aérea, operações especiais, métodos de instrução e regulamentação, e outro de treino de pilotagem e navegação, com aterragens e descolagens em pistas de circunstância ou improvisadas e técnicas de apoio às forças terrestres, em aviões "Cessna" L-19, num total de cerca de 100 horas de voo. Os instrutores do treino de pilotagem eram oficiais do Exército e alguns civis contratados. 0 número e a variedade do tipo de pistas para o treino de aterragens e descolagens era impressionante.
Impressionante era também a eficácia e prontidão dos serviços de manutenção, tanto na Escola de Aviação do Exército como na Base Aérea de San Marcos. Os danos provocados nos aviões por condições meteorológicas extremas eram prontamente reparados, sendo mínimas as perturbações provocadas no prosseguimento do treino programado. As eliminações no Curso de "Army Aviation Tactics" eram raras.
Em Junho de 1953, o alferes Pacheco Rodrigues e, em Julho do mesmo ano, o alferes Belchior Vieira tornam se os primeiros oficiais (e viriam a ser únicos, até hoje ... ) graduados pela Escola de Aviação do Exército dos EUA. Porém, não viriam a ser os primeiros pilotos da nossa Aviação do Exército...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A BASE AÉREA Nº. 3... PORQUÊ EM TANCOS?

Há algumas zonas "nebulosas" na história mais conhecida da antiga Base Aérea nº. 3, que se prendem com o facto de as infraestruturas que deram lugar à primeira unidade de aeronáutica militar sediada no Polígono de Tancos serem pertença do Exército, mas essa zona obscura da história deixa de existir se tivermos em conta que a Força Aérea nasceu das extintas Aeronáutica Militar e Naval, uma nascida em Vila Nova da Rainha, com extensão à Amadora e a Espinho, enquanto a outra o foi no Arsenal do Alfeite, com extensão na Doca do Bom Sucesso e em São Jacinto.
Na realidade, em 1911 havia sido criada a Companhia de Aerosteiros do Exército Português, em Vila Nova da Rainha (Azambuja), que foi a primeira unidade aeronáutica militar portuguesa. Esta unidade, mais tarde tornada Batalhão de Aerosteiros, tinha por principal missão a operação de aeróstatos, sobretudo balões de observação, e em 1912, a título experimental, foram integrados na Companhia de Aerosteiros os primeiros aviões, o primeiro dos quais um Deperdussin B, nascendo assim a aviação militar portuguesa.
Em 1914 criou-se no Exército Português o Serviço Aeronáutico Militar e a Escola Militar de Aeronáutica (EMA), igualmente instalada em Vila Nova da Rainha, junto ao Batalhão de Aerosteiros, enquanto no ano de 1917 foi criado na Marinha Portuguesa o Serviço e Escola de Aviação da Armada, com a primeira base aeronaval, o Centro de Aviação Marítima do Bom Sucesso, em Lisboa.
1917 foi o ano em que os primeiros aviadores portugueses entram em combate, em França, na 1ª Guerra Mundial, estando prevista a criação dos Serviços de Aviação do Corpo Expedicionário Português, para participar no conflito mas não chegam a ser activados, razão porque a maioria dos pilotos militares enviados para França, para formarem o serviço, são integrados em unidades de aviação francesas e britânicas.
1918 foi o ano da aviação do Exército ser reorganizada, passando a chamar-se Serviço de Aeronáutica Militar, com uma Direcção de Aeronáutica dependente directamente do Ministro da Guerra, as Escolas Militares de Aviação e de Aerostação, as Tropas Aeronáuticas (de Aviação e de Aerostação) e o Parque de Material de Aeronáutica, em Alverca, dotado de capacidades para a construção de aviões e motores, ao mesmo tempo que o Serviço de Aviação da Armada foi igualmente reorganizado, passando a designar-se como Serviços da Aeronáutica Naval.
Em 1919 foi criado o Grupo de Esquadrilhas de Aviação "República" (GEAR) , na Amadora. Foi a primeira unidade operacional da aviação militar em Portugal, integrando esquadrilhas de combate (caças), de bombardeamento e de observação, que em 1921 se tranferiu para o Polígono de Tancos, ficando estacionado nas instalações do Batalhão de Aeroesteiros de Engenharia.
Em 1924 a Aeronáutica do Exército tornou-se arma independente, em paridade com as Armas da Cavalaria, Infantaria, Artilharia ou Engenharia. Era a Arma de Aeronáutica Militar. Em 1931, os Serviços de Aeronáutica Naval são transformados nas Forças Aéreas da Armada.
Em 1937 foi reorganizada a Aeronáutica Militar , passando a dispor de um comando autónomo, o Comando-Geral da Arma da Aeronáutica, que a torna, práticamente, num ramo independente, apesar de administrativamente dependente do Exército. Criou-se o Comando Terrestre de Defesa Aérea e na nova organização passam os principais aeródromos militares a ser designados por Bases Aéreas. Nasceu assim a Base Aérea de Tancos, conjuntamente com as Bases de Sintra e Ota, extinguindo-se então as Unidades Aéreas da Amadora e de Alverca, mantendo-se nesta última as Oficinas e um Depósito de Material Aeronáutico.
O Subsecretariado de Estado da Aeronáutica foi criado 1950, para tutelar toda a aviação militar portuguesa.
RESUMINDO: - O Aeródromo Militar de Tancos foi activado em 1919, como Esquadrilha Mista de Depósito, transferida de Alverca para ali. Em 1921 é a sede da primeira unidade operacional de aviação de caça portuguesa, a Esquadrilha de Caça Nº 1.
Com a criação da Força Aérea Portuguesa em 1952, o aeródromo passou a ser tutelado por este ramo, já como base aérea.
Em 1993 o aeródromo é transferido para o Exército Português, operando como base de tropas paraquedistas.
Pelo que se pode vêr, fica desvendado o mistério de a Base Aérea nº. 3 haver nascido numa unidade do Exército... para o seio do qual acabou por voltar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A BASE DA SAUDADE

No dia 24 deste mês foi dia de "matança" das saudades!
No Restaurante Manjar dos Templários, ali mesmo à mão de semear quando se vira para a Barragem do Castelo de Bode, nas cercanias de Santa Cita e a dois passos da Feira de Santa Iria, que continua a fazer as delícias dos visitantes da cidade dos Templários, essa vestuta Thomar de que D. Gualdim Paes se fez mister promover como lugar de romagem pelos séculos infindos, reuniram-se os saudosos da Base onde se afirmava que "RES NON VERBA" não saberemos nunca porquê.. ou talvez venhamos a saber que a nossa Base era única, senão a primeira entre todas as Unidades da Força Aérea onde primeiro se trabalhava, depois se falava.
Cumpriu-se o programa a preceito e lá tivemos o nosso antigo Capelão, o Padre António Bernardo, a celebrar a Santa Missa em Acção de Graças e sufrágio pelos nossos companheiros que partiram.
Depois... bem... se o bacalhau estava apetitoso, o leitão estava supimpa. Entre umas garfadas e una goles do precioso néctar da região, foram mitigadas as saudades juntamente com a fome... até porque esta é de 3 dias e apenas lá estivemos 1 e incompleto.
Foi bom rever amigos e fazer uma saúde e manifestando o desejo de que para o ano seja possível voltar a reunir a "malta" amiga que, um dia já muito distante, viu fecharem-se as cancelas do Posto 1, pois a Base foi ocupada por outras tropas, outras gentes, outros interesses!
O GALGO continuará sempre a correr por nós, na atitude de caça que sempre foi seu mister... mas nós, que da Base apenas temos a memória dos tempos nela vividos, apenas queremos que a saudade não seja daquelas que nos fazem soçobrar.
A Base Aérea nº. 3 completava a bonita idade de 88 anos! Mesmo não estando dentro dos seus muros, não a esquecemos e cantámos-lhe os parabéns... desejando que esta data se continue a comemorar.
É pela saudade que vamos ganhando a coragem necessária para a continuar a recordar! Ela bem o merece!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OS PIONEIROS DE UMA AVIAÇÃO QUE NÃO CHEGOU A EXISTIR - II

Pipper Super-Cub L-21
2. PRIMEIRAS MEDIDAS TOMADAS PELO GENERAL ABRANCHES PINTO COMO MINISTRO DO EXÉRCITO
- Assumida a pasta ministerial do Exército, o General Abranches Pinto agiu de imediato no sentido da criação de uma Aviação Ligeira de Observação de Artilharia. Para isso, determinou:
"0 estudo e elaboração de um projecto de decreto-lei para a criação de uma aviação ligeira no Exército, com pilotos recrutados entre os oficiais de Artilharia voluntários (pílotos-observadores), ou provenientes de qualquer outra Arma, se tal fosse julgado conveniente pelo Ministério do Exército".
As revisões e as grandes reparações dos meios aéreos seriam realizadas, em princípio, nas Oficinas de Material Aeronáutico. A formação base dos pilotos-observadores e dos especialistas de conservação e manutenção dos aviões (apenas para pequenas reparações) eram asseguradas pela Aeronáutica Militar, mas a instrução de observação aérea dos pilotos-observadores era atribuída a centros de instrução do Exército. Era ainda prevista, como responsabilidade do Exército, "a construção e conservação de hangares, pistas e aeródromos especiais".
0 estudo e construção de uma pista e de um hangar no Polígono de Tiro da Escola Prática de Artilharia (EPA), em Vendas Novas, onde passaria a funcionar um centro de instrução de observação aérea "integrante da Formação Escolar da EPA".
Em 1952 é inaugurado, em Setembro, no Polígono de Tiro da EPA, o campo de aviação "General Abranches Pinto".
0 conceito da aviação ligeira pretendida para Exército evoluiu no sentido de uma aviação não confinada às missões de
"observação de artilharia", seguindo o modelo americano. 0 primeiro manual do Exército dos EUA relativo à sua Aviação (ligeira)
foi, entretanto, traduzido integralmente na EPA.
0 Exército recebeu dos EUA, ao abrigo do MIAP ("Mutual Defense and Assistance Pact"), 22 aviões "Piper Super-Cub" L-21 e um lote de sobressalentes, sendo 8 destes aviões atribuídos à EPA. Previa-se, para mais tarde, uma dotação de helicópteros.
É feito convite aos aspirantes a oficiais de Artilharia do Tirocínio (TAO) de 1951-52 e a oficiais subalternos de Infantaria e Cavalaria para a frequência dos Cursos de "Liaison Pilot Training" (treino de Piloto de Ligação), na Base Aérea de San Marcos Texas, e de "Army Aviation Ractics" (Tácticas da Aviação do Exército) na Escola de Aviação do Exército em Fort Sill Oklahoma. Estes dois cursos constituíam, desde 1950, a formação de base dos pilotos do Exército dos EUA.
Ainda em 1952, em Outubro, seguem para os EUA, os alferes de Artilharia Guilherme de Sousa Belchior Vieira e João António Leite Pacheco Rodrigues, que interromperam então o Estágio de Artilharia Anti-Aérea frequentado no Regimento de Artilharia Anti-Aérea de Queluz, e os tenentes Manuel José Lopes Cerqueira e Victorino de Azevedo Coutinho, respectivamente, de Cavalaria e Infantaria. Os alferes eram os dois primeiros classificados do seu Curso da Escola do Exército (tinham sido cinco os voluntários do TAO para os cursos nos EUA), o tenente Lopes Cerqueira possuía um certificado de piloto de "Gliders" obtido na Alemanha e o tenente Azevedo Coutínho possuía um certificado de piloto de aviões ligeiros.
Os oficiais nomeados não receberam qualquer tipo de instrução prévia ou de ensino de inglês técnico, nem sequer foram submetidos a uma inspecção médica específica em Portugal. Os dois alferes tiveram o seu "baptismo de voo" no avião "Super Constellation" da "TWA" que os transportou de Lisboa para Nova lorque, via Santa Maria, Gander (Terra Nova) e Boston... (CONTINUA)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

OS PIONEIROS DE UMA AVIAÇÃO QUE NÃO CHEGOU A EXISTIR

É já no próximo mês que se "comemora" o 88º. aniversário daquela que foi a Base Aérea nº. 3, que alguém resolveu alienar a favor do Exército... cumprindo um desejo de muitos anos que esta Arma sempre manifestou de forma clara e inequívoca: Como a Base tinha sido instalada em infraestruturas que foram da Aeronáutica Militar, que pertenceu ao Exército até que, em 1952, foi entregue à Força Aérea Portuguesa, então criada.
Não importa que tenha a F.A.P. construído importantes infraestruturas naquela Unidade! Muito do que se construíu não aproveita aos Paraquedistas, porque era destinado a aviões e não pára-quedas. Gastaram ali o que tinham e não tinham, para depois se ter de passar tudo para as mãos de um pseudo GALE - Grupo de Aviação Ligeira do Exército, que foi "criado" mas não concretizado, como está claramente demonstrado. Leia-se o artigo que segue, que esclarece muita coisa... e nada.
"O Exército Português ainda não opera helicópteros em Portugal (nem em qualquer outra parte do mundo). Recentemente houve, e ainda está a haver, uma tentativa de adquirir helicópteros ligeiros e posteriormente helicópteros de transporte.
O processo não está a ser pacífico, mesmo nada. Avanços e recuos sucessivos associado a falta de decisão política condimentado pelo facto de Portugal passar um período de escassos recursos financeiros.
Diz o povo que a história se. repete. E de facto assim parece ser. Senão leiam com atenção um artigo elaborado pelo General Belchior Viera, publicado na Revista de Artilharia e que tomo a liberdade de transever na integra, se bem que por capítulos.
«É criada a Aviação Ligeira de Observação de Artilharia encarregada da utilização dos materiais ligeiros necessários para a Artilharia assegurar a observação e a conduta de tiro (..) sobre objectivos que não são vistos dos observatórios terrestres".
(De um projecto de Decreto/Lei do Ministério do Exército de 1950-51)
"0 grupo de Aviação Ligeira do Exército é a nova unidade que permitirá ao Exército actuar na terceira dimensão do campo de batalha".
(Do Livro Branco da Defesa Nacional 1994)
1. INTRODUÇÃO
Em 20 de Agosto de 1950, foi designado Ministro do Exército o general Adolfo do Amaral Abranches Pinto que, como brigadeiro, vinha exercendo as funções de Adido Militar e Aeronáutico junto da nossa Embaixada em Washington, desde Fevereiro do mesmo ano. O Exército dos Estados Unidos da América desenvolvia, então, uma série de experiências de doutrina táctica e organização operacional com base nos ensinamentos colhidos durante a II Guerra Mundial e nos novos tipos de armamento e equipamento com que passara a ser dotado. Entre este equipamento, contavam-se os aviões ligeiros, orgânicos de unidades do Exército e pilotados e mantidos por pessoal deste Ramo. Utilizados com frequência em missões de observação na II Guerra Mundial (70% das regulações do tiro de artilharia foram realizadas por observadores aéreos), os aviões ligeiros (os "piper Cub" L-4 e L-5) só depois do final desta guerra surgiram integrados num primeiro ordenamento orgânico . Mas, foi, sem dúvida, na guerra da Coreia que os aviões ligeiros alcançaram a sua "maioridade operacional", com a utilização diversificada e intensa do avião "Cessna" L-19, conhecido como "Bird Dog". Os helicópteros do Exército, surgidos no TO coreano, só viriam a alcançar notoriedade, mais tarde, no Vietname.
Na Coreia, os L-19 foram utilizados em missões de observação (regulação e verificação do tiro de artilharia e morteiros, aquisição de objectivos, reconhecimento de itinerários e posições, segurança de colunas de viaturas, pesquisa de actividade do inimigo, fotografia aérea, vigilância) e de transporte (ligação, serviço postal, lançamento e recolha de mensagens, evacuação de feridos, lançamento de fio telefónico, "relais" rádio, reabastecimento de emergência).
Artilheiro e entusiasta da aviação, tinha obtido o "brevet" internacional de pilotagem civil na Alemanha (1923) e especializara-se em observação aérea em balão e avião no Exército Francês (1934-35), o general Abranches Pinto trouxe consigo para Portugal a "ideia" de uma aviação ligeira do Exército, decidido a concretizá-la entre nós numa "escala" compatível com o nosso potencial militar. Não o conseguiu, apesar de nela ter empenhado todos os seus esforços.
Quase meio século passado, aquela "ideia" renasceu entre nós. Vingará agora?
Uma reflexão "histórica" poderá ser muito útil para os políticos e militares responsáveis pelo programa em curso."
(CONTINUA)

sábado, 12 de setembro de 2009

B.A.3 - Uma Base com história

Muitas vezes me têm perguntado porque razão refiro sempre ter saudades da Base Aérea 3, uma vez que tenho uma Base "mesmo ao pé da porta", como é o caso da Base Aérea 5, de Monte Real, dado ser natural de Leiria. Costumo responder que "não há amor como o primeiro"... e porque foi em Tancos que recebi o meu quinhão de saudade, ao ser incorporado na Força Aérea, é esse facto determinante no que se refere a ser-me suscitado tal sentimento.
Posso dizer que assisti à inauguração da BA5, mas foi no GDACI que tive o primeiro contacto oficial com a FAP, uma vez que fui lá inspeccionado para o Serviço Militar, enquanto na Base de Tancos fui incorporado, fiz toda a instrucção Militar e jurei Bandeira. Também foi na Base Aérea 3 que fiz o meu curso.
Fui colocado na BA5 após regressar de Angola, mas os dois anos ali passados não me fizeram esquecer Tancos, mesmo que tenha sido também um tempo importante o que vivi... numa Base que era a antítese daquilo que se preconizava encontrar numa Unidade Militar cinco estrelas, algo tornado necessário para quem estava no meio castrense, como seja: CAMARADAGEM entre todas as classes, sem os indesejáveis separatismos entre especialidades que eram apanágio da Base de Monte Real, onde se vivia segundo as "castas", ao passo que em Tancos havia uma noção arreigada de que o espírito Militar e o espírito de Família não estavam dissociados! Era a casa enorme onde cabia toda a grande família da Força Aérea, porque também os outros, que à BA3 iam adir para efeitos da frequência de qualquer curso ou em missão de serviço, eram integrados nessa grande família!
Não estava arreigada no espírito de ninguém a convicção de que "A FORÇA AÉREA EXISTE PORQUE EXISTEM PILOTOS E AVIÕES!", como por vezes se ouvia dizer em Monte Real. Em Tancos também existiam aviões e Pilotos, mas existiam igualmente os Mecânicos de Material Aéreo e Terrestre, Electricistas, de Rádio, de Armamento, havia o pessoal de Controle, de Meteorologia ou Comunicações, para não falar nos Abastecimentos, nos Amanuenses, na Polícia Aérea, nos Bombeiros, nos Condutores, nos Clarins... e até nos Cozinheiro, bastante importantes para cozer as batatas que eram servidas à mesa de todos os outros, como importantes eram aqueles "fulanos" que limpavam a pista, a iluminavam, a conservavam... sendo que eram todas estas pessoas que permitiam que os aviões fossem para o ar, no cumprimento das missões que lhes eram cometidas, cientes de que todos tinham dado o seu contributo para o cumprimento da missão!
Era assim a Base Aérea nº. 3, que honrava por completo a sua divisa... e a Força Aérea de que se orgulhava ser uma parte importante.
Foram muitos os anos que deram àqueles que fizeram a Força Aérea Portuguesa motivos de sobra para se reverem na história que ajudaram a escrever. Muitos daqueles que um dia passaram os portões da Base, já hà muito foram para junto do Criador, pois é essa a natureza humana, mas nós, que ainda esperamos a nossa hora, não esquecemos aqueles que nos antecederam nos 88 anos de vida da nossa Base Aérea 3.
Esta Base é eterna... enquanto estiver guardada na nossa memória!